O Brasil tem mais de 16 milhões de diabéticos — e cerca de 15% deles desenvolverão uma úlcera nos pés ao longo da vida. Desses, uma parcela significativa chegará à amputação. Esses números são alarmantes, mas o mais importante é que mais de 85% das amputações em diabéticos são evitáveis com prevenção e acompanhamento adequados.
Por que o diabetes afeta especialmente os pés?
A hiperglicemia crônica (açúcar elevado no sangue por longos períodos) danifica dois sistemas que protegem os pés:
Neuropatia diabética periférica
O excesso de glicose danifica os nervos periféricos. Nos pés, isso se manifesta como:
- Redução ou perda total da sensibilidade — a pessoa não sente dor, calor, frio ou pressão
- Formigamento, queimação ou dor (nas fases iniciais)
- Fraqueza muscular, levando a deformidades como dedos em garra
- Redução da sudorese, tornando a pele ressecada e propensa a rachaduras
A perda de sensibilidade é o maior perigo: sem sentir dor, a pessoa não percebe ferimentos, bolhas ou pressão excessiva, que podem evoluir para úlceras profundas.
Doença arterial periférica (angiopatia)
A diabetes acelera a aterosclerose (entupimento das artérias), reduzindo o fluxo sanguíneo para os pés. Com circulação comprometida:
- Ferimentos não cicatrizam ou cicatrizam muito lentamente
- O sistema imune local fica enfraquecido — infecções progridem rápido
- Tecidos podem entrar em necrose (morte celular)
A combinação fatal: neuropatia + angiopatia
Quando as duas condições coexistem, um ferimento aparentemente pequeno (como uma bolha, arranhão ou calo) pode evoluir rapidamente para uma úlcera profunda, infecção óssea (osteomielite) e, nos casos mais graves, necessidade de amputação.
O ciclo típico: pele ressecada → rachadura → infecção → úlcera → infecção óssea. Sem tratamento precoce, cada etapa do ciclo se torna mais difícil de reverter.
Rotina diária de cuidados para diabéticos
Inspeção diária
Examine os pés todos os dias — incluindo a sola e entre os dedos. Use um espelho se tiver dificuldade de ver a planta. Procure:
- Ferimentos, bolhas, arranhões, cortes
- Vermelhidão, inchaço, calor localizado
- Pele ressecada, rachaduras, descamação
- Alterações de cor (palidez, roxeado)
- Calos ou calosidades em formação
Higiene adequada
- Lave os pés diariamente com água morna (teste com o cotovelo ou termômetro — nunca acima de 37°C)
- Use sabonete neutro e enxágue bem
- Seque completamente, especialmente entre os dedos — umidade favorece fungos
- Nunca mergulhe os pés por longos períodos (macera a pele)
Hidratação
- Aplique creme hidratante com ureia (10–20%) na sola e calcanhar após secar os pés
- Nunca passe creme entre os dedos — a umidade pode causar maceração e fungos
- Se a pele estiver muito ressecada, use duas aplicações diárias
Corte das unhas
- Corte as unhas reto, sem arredondar os cantos
- Use alicate de pedicure limpo e esterilizado
- Não corte muito curto
- Se tiver dificuldade de enxergar ou cortar, deixe o podólogo fazer
- Nunca corte calos ou calosidades em casa
Calçados adequados
- Sempre use meias — de algodão, sem costuras internas grossas
- Inspecione o interior do calçado antes de calçar (objetos, dobras)
- Prefira calçados com bico arredondado e suficiente espaço para os dedos
- Nunca use calçados apertados, salto alto ou bico fino
- Nunca ande descalço — nem em casa
- Para atividades físicas, use tênis específicos com amortecimento adequado
O papel do podólogo no cuidado do pé diabético
O podólogo especializado em pé diabético realiza:
- Avaliação neurológica dos pés: testes de sensibilidade com monofilamento de Semmes-Weinstein
- Avaliação vascular: palpação de pulsos, temperatura, coloração
- Classificação de risco: definição da frequência de acompanhamento
- Cuidado das unhas: corte seguro com instrumentos esterilizados
- Tratamento de calos e calosidades: desbridamento seguro sem risco de ferimentos
- Tratamento de rachaduras: fechamento de fissuras antes que se tornem porta de entrada
- Curativo de lesões: nos casos de ferimentos já presentes
- Orientação de calçados e palmilhas: redistribuição de pressão plantar
Frequência de consultas recomendada
- Risco baixo (sem neuropatia, sem doença vascular): a cada 6–12 meses
- Risco intermediário (neuropatia leve ou DAP compensada): a cada 3–6 meses
- Risco alto (neuropatia grave, deformidades, histórico de úlceras): a cada 1–3 meses
- Qualquer ferimento ativo: imediatamente, independente da classificação
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Depende do nível de risco. Risco baixo: 6–12 meses. Risco intermediário: 3–6 meses. Risco alto (neuropatia grave, histórico de úlceras): 1–3 meses. Qualquer ferimento: atendimento imediato.
Pode, desde que com profissional especializado em pé diabético. A temperatura da água deve ser testada com termômetro (nunca acima de 37°C) e não deve ser usada imersão prolongada. A podóloga verifica a integridade da pele antes de qualquer procedimento.
A amputação. O Brasil registra cerca de 70.000 amputações por ano em diabéticos — mais de 80% são precedidas por uma úlcera evitável. A combinação de neuropatia (perda de sensibilidade) com angiopatia (má circulação) cria condições para infecções que não cicatrizam sem tratamento especializado.